segunda-feira, 2 de abril de 2012

Quebrângulo - II parte



“Diferentes somos todos nós. Mas o desejo é sempre o mesmo. Amar e ser amado”

Continuação da primeira parte – (os nomes foram mudados)

Eram quase 4hs da manhã quando nosso ônibus vindo de Fortaleza/CE parou na rodoviária de Natal e ali vi subiram três pessoas, duas mulheres e um homem. Não perdendo de vista nada que se passassem diante dos meus olhos, me fixei de modo interrogador no semblante pensativo de uma jovem senhora vestida de calça cotton e camiseta lilás. Tinha os cabelos amarrados em um coque desfeito. Observei-a detalhadamente enquanto o motorista colocava duas malas vermelhas dentro do bagageiro. O tempo todo ela estava de cabeça baixa. Foi só quando caminhou para a entrada que virou o rosto olhando em volta parecendo procurar alguma coisa, percebi os olhos vermelhos de chorar. Então subiu as escadas e se dirigiu para o fundo. Foi só uma curiosidade. O ônibus deu a partida, eu puxei a manta virei de lado fechei os olhos e dormi. Eram 8hs, acordei com o ônibus parando para o café da manhã. Percebi aquela mulher da madrugada descendo e pedindo ao motorista que abrisse o bagageiro. Vi quando tirou uma blusa e um par de meias. Segui-a com o olhar enquanto se dirigia ao banheiro da lanchonete e então desci e fui até a lanchonete tomar meu café. Já tinha passado questão de 15 minutos quando ela o motivo da minha curiosidade entrou. Havia uma cadeira na mesa em que eu estava ela perguntando se estava vaga sentou. Não falou mais nada. Permaneceu sentada e como que abstrata sob a fumaça dos meus pensamentos que se formavam cada vez mais preenchendo o espaço como um manto poético no céu de primavera.

Posso escrever minuciosamente o instante, pois casualmente olhei para o relógio: os ponteiros passavam 20m das 8hs, naquela manhã do dia 26.02.2012, estava inteiramente absorta por aquela história que logo mais eu tinha certeza de que iria se formar de maneira doce e intensa.

Foi logo após sentar no meu banco o primeiro do ônibus, que ela se aproximou e perguntou se tinha alguém sentado ali no lado. Disse isso e explicou que estava sentada no meio do ônibus debaixo do ar condicionado e havia sentido muito frio naquele pedaço de noite.  Respondi a ela que o senhor que ali estava tinha descido na parada anterior, e que ela podia ficar ali se quisesse. Ela foi buscar sua bolsa e logo voltou. Era uma manhã linda, o ônibus estava entrando em Maceió. Ela com sua máquina tirava fotos da paisagem e assim a viagem seguia sem trocarmos uma palavra ate a cidade de São Miguel dos Campos quando entrou um senhor  e sua enteada. Sentaram no banco vago próximo a nós. Aquele senhor tinha a curiosidade humana que é a verdadeira ocupação das pessoas simples, e assim ela começou a desdobrar-se, não só ela, mas todos ali e os que estavam no banco atrás se procuravam e contavam parte de suas vidas, de onde vinham e para onde iam e foi naquela noite que começamos a ouvir a história que levou Elisa para Natal/RN e o que a fez voltar tão rapidamente.

Preciso criar uma figura para essa fala, aperfeiçoando com maestria esse quadro da minha fantasia. Tinha olhos castanhos escuros, cabelos claros, lábios grossos, sensualmente cerrados, como se houvesse um sorriso fechado pronto para sair há qualquer momento. Nesse momento ela se adiantou um pouco para tirar uma foto da praia dos sete coqueiros, e aborreci-me comigo mesmo. Eu fantasiava muito mal: tudo era diferente; tudo era quase escandalosamente diferente da minha visão! Não usava um vestido de crepe rodado; não era magra e sim cheia de corpo e de quadril largo e na sua face procurei um sinalzinho de beleza; os seus cabelos eram secos e quebradiços ao invés de macios e sedosos. Cada vez mais cheio de detalhes ia se tornando esse retrato e comecei a sentir essa mulher estranha, que visível estava do meu lado, como um filme revelado na minha retina.

Foi um pouco mais tarde, com a linda visão do sol se pondo no horizonte bem em nossa frente que Elisa começou sua história. Tinha uma voz bonita de se ouvir,  falava com certo acento estrangeiro, muito tranquila e pausadamente. Ergui-me e ela não me viu, no momento em que batia mais uma foto do por do sol. Ela me olhou surpresa, um clarão sorridente passou pelos seus olhos tristes, e os lábios se abriram num sorriso iluminando todo o seu rosto em cores vivas. Vi uma aura maravilhosa nela. Você será bem sucedida. Sua vida vai mudar você vai ver – Pensei.

Vou contando em partes, em forma de personagens, como uma peça de teatro. Foi assim que escrevi, foi assim que ouvi. Desculpem os erros gritantes de português, é a primeira vez que sento perto de uma máquina dessas. Não estou acostumada a digitar em um teclado e nem sei como fazer a correção.

(Elisa) – Peguem os lenços!

(MA) – Eu ainda acredito no casamento no papel, com pompas e circunstâncias! Assim eu quero o meu próximo! (rindo)

(Laís) – Casamento eu não sei se quero, mas matar um eu sei que ainda
Quero (Risos)

 (MA) – A minha história também requer lenços! Conta a tua Elisa depois eu conto a minha. Assim todos usam o mesmo lenço e economizam (Risos)

(Elisa) - Referente à minha vinda para Natal, devo dizer que ainda esta tudo muito confuso em minha mente, vou tentar destrinchar em doses homeopáticas é claro, pois ninguém é de ferro e nem eu. Tudo começou quando fiquei doente. Foi no meio do ano passado. Para me distrair passava longas horas deitada de bruços. Ficar de bruços era a única posição suportável.  Arrumei um companheiro para as noites em claro: meu computador. Comecei fazendo um blog e depois fui atrás de amigos virtuais e encontrei o facebook. Tinha um certo receio dessa vida virtual, por ouvir muitas histórias, mais negativas do que positivas. Mas quando se fica doente, sem ninguém com quem conversar, a coisa se torna difícil de controlar. A solidão se tornou um sentimento bem doloroso.  Provoca um sentimento de vazio, de isolamento, de estar fora do convívio de outras pessoas.  Estava me sentindo vulnerável e assustada. Já se sentiu assim? 


(Elisa) - Passava as noites em claro, sentindo dor. E foi em uma noite dessas que recebi uma solicitação de amizade. Depois de analisar o perfil, aceitei sua solicitação e não lembro mais como foi o inicio... Lembro das musicas que enviava, das poesias... Conversávamos no bate papo. Na época eu não estava muito a fim do estilo das conversas dele, eram um tanto chulas,, me aborrecia, e eu passava grande parte brigando com ele. Já sabia de cor qual seria a cantada e a sua forma. Uma animação apenas, nunca uma excitação. Ei tem alguém ai. Vocês estão acordados?

 
(Mariana) – Bem... Eu estou acordada por enquanto... Só vendo ate onde você vai chegar.

 
(Elisa) – Eu vou chegar ao bairro de Nazaré, foi lá que meu sonho terminou. Bom, voltando.... Eu estava presa em uma cama, com câimbras terríveis na perna. Não encontrava alguém que me ajudasse. No banho se o sabonete caísse lá ele ficava porque abaixar era impossível. Tornei-me uma pessoa infeliz. Queria morrer. Mas não podia dizer isso. Isso seria uma violência para comigo e uma falta de agradecimento para com o dador da vida. Comecei a pensar o quanto seria bom ter alguém, alguém para segurar minhas mãos quando a dor fosse maior do que eu, alguém que passasse as mãos pelos meus cabelos, tarde da noite e dissesse: “Não se mexe não gatinha, eu vou esquentar a água para a bolsa”. Assim ele postava poesias, assim ele postava músicas e eu compartilhava e os dias foram passando até o dia que ele sumiu... Ei, tem alguém ainda ai ou eu estou falando com meus botões?

(Onofre) – A história esta interessante... Continua...

 
(Suzana) – Eu não quero dormir, gosto de olhar a estrada, e está bom ficar aqui  ouvindo você falar...





(Elisa) – Era uma música de Serge e Jane Birkin, não fazia muito meu estilo, preferia mais Ludovic Einaldi ou Phillip Glass, mas aprenderia a gostar. E acho que aprendi a gostar. Um dia ele sumiu. Não respondeu mais minha mensagem, por talvez dois meses. E eu também resolvi sumir... Mas depois um dia fui procurar e ele havia voltado. E começamos a nos falar novamente. E ele disse o quanto ficou doente também e o quanto eu fui importante em sua cura. Chegou até a escrever isso em seu blog, me agradecendo, mas hoje se alguém for lá não encontrara mais. Ele foi um agradecido por pouco tempo, muito pouco tempo.
 .......................................................................................................................................... Desculpem-me pessoal preciso dar uma parada para pensar um pouco (Enxuga as lagrimas com a blusa)

(MA) – As coisas que a gente faz por amor 

(Suzana) - É mesmo!



(Elisa) – Começamos novamente a nos falar. Agora ele estava diferente. Mais sério. Contou sobre as mudanças que fez em sua vida. Duas dela eu presenciei: tirou a barba e no dia 01.01.2012 parou de fumar. Assim quando ele disse que queria passar os próximos trinta anos comigo, eu acreditei. Quando disse que me amava, eu acreditei... E que estava atarefado comprando uma cama de casal e passávamos longas horas no Skype discutindo se a cama entraria ou não no quarto onde estava o computador ou no outro... E que faria massagem em meus pés, nas minhas pernas em minhas crises de dor, e que me amaria... E que não conseguiu dormir naquele dia em que quis colocar uma rede na sacada e imaginou que eu poderia cair lá embaixo... E que estava preocupado com minha comida. Será que eu comia carne? E que não via a hora de me abraçar. E que não era um aproveitador, iria casar comigo. Quem em seu juízo perfeito seria capaz de rejeitar tanto. Hoje acho que todo mundo. Como eu posso chamar isso... Alguém ai me ajuda............................................ (Silêncio)....................................

É foi isso... Eu não resisti... Os dias foram passando. Mas não passou muito porque aprendemos a eliminar dias e assim pulávamos dois dias e contávamos um. E um dia, depois de meses de dor, de espera, morfinas, tylex, facebook, La decadense, Serge e Jane, não resisti e disse SIM. Sim eu iria....................................................................................



(Elisa) - Posso continuar? Ma você esta ai com seu lenço?

 
(MA) – Continua estou acompanhando

(Elisa) – Bom, vocês devem saber que um relacionamento virtual é frustrante. É um corpo ressequido, como diz a música de Marisa Monte.
Assim, sonhando alto, quando já não havia mais papel para anotar tantas promessas, combinamos que iria. Ele disse que se o dinheiro não fosse suficiente ele me ajudaria. E enquanto minha família estava de férias eu fazia planos. Comprei passagem somente de ida e quando chegaram eu já estava com as malas prontas disse somente: estou indo!

(Onofre) – Pô Elisa, você não respira para falar (risos)


(Laís) -  Não atrapalhem, deixem nossa Sherazade terminar



(Elisa) - Arrumei todas as minhas tranqueiras (quase) em duas malas abarrotadas que ultrapassaram os quilos que eram permitidos e fui feliz da vida. Afinal era noiva, e iria casar. Acho que esse sonho sempre irá me perseguir. Desliguei o telefone a TV paga, guardei meus livros, escondi alguma coisa para ninguém pegar e fui. Isso foi no dia 11 de janeiro. Dia 11 de janeiro eu fui. Repito só para vocês não esquecerem. Estava lá no céu há mais de não sei quantos mil pés, olhando as nuvens, tirando fotos da cidade lá embaixo, da asa do avião. De algum ponto no horizonte... Pensando no futuro que estava logo ali em frente, e que o alcançaria dali duas horas. Somente duas horas. E se o avião caísse eu estava pouco me importando porque estava indo por uma boa causa e viver ou morrer valia pena e, não sei mais o quê. Então o avião pousou em um aeroporto simples. Longe, quase no fim do mundo. Acostumada que estava com as coisas grandiloquentes. Minhas malas foi uma das primeiras a chegar. Eu não tinha pressa. Ele não estava sozinho. Não poderia chegar e correr e me jogar em seus braços. Sua filha estava lá com ele. E ela já havia perguntado ao pai: “Quando ela vai embora”. Ele havia me dito isso. Ela não era nenhuma criança. Ele tinha três filhos. Todos balzaquianos, com trinta anos ou mais. Sua ex-esposa também havia dito: “Eu aguentei 37 anos, será que ela aguenta um mês?”. Tentava não pensar nisso. Mas isso ficava no ar martelando como mau agouro.  Tentei arrumar meu cabelo que estava solto, coloquei o óculos escuro para esconder meus olhos fundos de uma noite em espera...

Mlailin

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